Entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2025, o Observatório Participativo da Desinformação se aproximou do movimento hip hop em Belo Horizonte e região metropolitana com o desejo de entender se e como a desinformação se apresentava e influenciava essa cena cultural.
O desejo de se aproximar das batalhas surgiu nas reuniões do Núcleo de Criação do Observatório e atendia a necessidade de conversar com um público jovem e urbano, mostrando que a desinformação ultrapassa eventos pontuais, como as eleições.
Escutando quem rima
Para se aproximar do movimento, o primeiro passo foi mapear as batalhas ativas na RMBH. Esse mapeamento trouxe também o primeiro desafio: em dezembro, as batalhas estavam em pausa, e não seria possível desenvolver uma ação em batalhas já existentes.
Partindo disso, contamos com o auxílio de Daniel CF, fundador do grupo de rap Codinome Favela, produtor cultural e audiovisual, e com Tiago Toth, militante de direitos humanos, educador popular e monitor do Núcleo de Criação, para localizar agentes da cena hip hop que poderiam ser nossos parceiros nessa campanha.
Iniciamos o processo de escuta com os MCs Togau, Karma (Batalha do VNZ e Casa Semifusa, em Ribeirão das Neves), Roklion (Batalha do Minas Caixa, Venda Nova), o grafiteiro Kesk e o próprio Daniel CF.

A escuta trouxe vários caminhos pelos quais a desinformação prejudicava o movimento, desde conteúdos que criminalizam as batalhas, favorecem a violência policial e reforçam o racismo estrutural, até as desinformações que são reproduzidas na própria cena e prejudicam a formação de novos MCs, como conteúdos antipolíticos, ataques às políticas culturais, entre outros.
Além disso, escutamos sobre impacto da desinformação no papel histórico de formação político-social exercido pelo hip hop. As notícias falsas ou parcialmente verdadeiras afetam, segundo os escutados, diretamente o que é conhecido na cena como o quinto elemento do hip hop: o conhecimento (os quatro elementos restantes seriam: a rima, a dança, a discotecagem e o grafite). Outro ponto interessante trazido em todas as escutas foi a dificuldade de acesso a livros e a importância de colocar esse objeto na rotina dos futuros MCs, produtores e grafiteiros.
A partir dessa escuta, decidimos construir uma ação que recuperasse o quinto elemento do hip hop na cena local dos MCs e fortalecessem encontros como espaço de formação política, para onde os sujeitos levam e onde procuram conhecimentos seguros e relevantes para suas realidades, em sua própria linguagem e de forma coletiva. A partir disso, elaboramos coletivamente o evento O quinto elemento do hip hop: encontro de formação sobre hip hop, conhecimento e enfrentamento à desinformação, sediado na Casa Semifusa em Ribeirão das Neves, composto por uma vasta programação para um dia inteiro de atividades envolvendo nomes relevantes da cena local de Ribeirão das Neves, nomes da cena de BH, além de outras instituições e especialistas interessados no tema.
O acesso dos MCs à informação
Uma vez compreendido que o acesso à informação e ao conhecimento através de livros seria fundamental para formar os MCs para esse papel histórico do hip hop, decidimos contribuir na mobilização de uma demanda da Casa de construir uma Geloteca (uma biblioteca em uma geladeira). Em parceria com a Associação dos Amigos das Bibliotecas Comunitárias da Grande BH (Sabic) e doações de pessoas físicas, conseguimos arrecadar mais de 300 livros. O evento se iniciou com a transformação da geladeira em biblioteca feita por quatro grafiteiros: Adam Araújo, coordenador do projeto Geloteca BH, acompanhado do JP, Ronald e Kesk. Enquanto eles transformavam a geladeira, a Carol, bolsista do Observatório, conduzia uma conversa com eles sobre o tema. Eles ressaltaram a importância das gelotecas nos territórios para incentivar a leitura nas quebradas, compartilharam a estratégia de desenvolver o hábito de leitura aos poucos e abordaram também o papel do grafite e do pixo na formação das cidades. Um ponto sensível colocado é a apropriação dessas expressões artísticas por galerias e outros grupos desligados do hip hop, causando a alienação desse tipo de arte de seu contexto e afastando grafiteiros da cultura de resistência do hip hop.

Nada é mais importante para nós, que somos da periferia, do que adquirir informação – Adam Araújo

Para além da Geloteca, a promoção do conhecimento para a formação dos MCs foi feita através da distribuição de cartilhas sobre temas contemporâneos relacionados à desinformação. Em busca de materiais que tratassem das questões de desinformação e racismo online, encontramos a cartilha Regulação da IA e discriminação algorítmica, de Fernanda Rodrigues, coordenadora de pesquisa e pesquisadora do Instituto de Referência em Internet e Sociedade (Iris BH). Através desse contato, o Iris decidiu apoiar o projeto com essa e outra cartilha (de Enfrentamento à Desinformação em Redes Sociais), com a inclusão do evento na programação do Mês da Internet Segura, com a participação da Fernanda em uma das rodas de conversa e, por fim, com uma verba para a premiação da Batalha do Conhecimento, que encerraria a programação.
A resistência do hip hop e o papel das leis de incentivo à cultura no fortalecimento da cena

Dando seguimento a programação, foram apresentadas duas rodas de conversa. A primeira foi mediada por Karma e reuniu referências do hip hop e da desinformação: Bruno Sharp, fundador do centro cultural Di Quebrada e do Circuito Municipal de Arte Urbana Cores do Cotidiano, Fernanda Rodrigues, do Iris BH, Thiago Toth, diretor da ANEDUC e militante pelos direitos humanos, e Digô MC, fundador do Sarau das Lanternas e da editora independente A.berta. O foco era debater o hip hop como resistência e seu papel no enfrentamento à desinformação. A história do hip hop em Ribeirão das Neves foi resgatada e foram destacados a importância dos espaços coletivos de troca e resistência, a relevância e assertividade de iniciativas locais no combate à desinformação.
A arte não pode estar desassociada da realidade que a gente vive, principalmente o hip hop, que tem como missão de ser e de existir ser um agente transformador das nossas quebradas. – Bruno Sharp

E às vezes a forma que uma liderança comunitária encontra de promover a internet e promover o conhecimento digital vai ser muito superior ao que a gente vai ser capaz com esse conhecimento acadêmico, que peca até por não ter uma linguagem acessível– Fernanda Rodrigues
Na segunda roda de conversa, mediada por Daniel CF, tivemos a participação do Comitê de Cultura de Minas Gerais, representado por Joi Gonçalves e Túlio Nobre, Monge, fundador da Família de Rua e do Duelo de MCs e curador do Palco Hip Hop, e da vereadora de Ribeirão das Neves, Marcela Menezes, também participante do movimento hip hop da região. Nesse momento, a discussão girou em torno de desmentir boatos sobre leis de incentivo à cultura, da importância de usar a crítica como forma de melhorar essas leis, não de destruí-las, dos mecanismos que facilitam o acesso a essas leis e, mais uma vez, da relevância do trabalho coletivo, reunindo artistas, produtores, captadores e outros agentes em uma mesma equipe.

É um objetivo dessa desinformação desconstruir a política pública de cultura, e nós temos que falar ‘mano, eu não concordo com esse edital assim’, mas temos que lutar pelos editais, pelo sistema público! – Marcela Menezes

Batalha do conhecimento
Para encerrar o dia de atividades na Casa Semifusa, foi promovida uma Batalha do Conhecimento, com 16 MCs da região. Temas como Consciência Social, Representatividade, Desinformação, Internet e Acesso ao Conhecimento, retirados das rodas de conversa que rolaram ao longo do dia, foram disputados pelos participantes, dando a vitória ao MC BPO.

Foi Afrika Bambaataa quem estabeleceu os cinco elementos do hip hop. Segundo o artista estadunidense, o conhecimento seria a cola para unir todos os outros elementos. Reafirmando o que disse o mestre do hip hop, MC Togau reforça que isso aconteceu durante a batalha:
a batalha foi massa, porque toda conversa que a gente tinha tido na roda virou conteúdo na batalha. Então, se não virou consciência na pessoa na roda, entrou na hora da batalha em forma de poesia.

Abrindo caminhos
Elaborar esse evento de forma colaborativa com os agentes do movimento hip hop, valorizando seus territórios de atuação e agentes, nos ensinou que há caminhos variados no enfrentamento à desinformação. Fortalecer espaços coletivos, criar laços comunitários, conectar diferentes pontas de um mesmo movimento, recuperar e atualizar iniciativas já existentes geram espaços de resistência às notícias falsas. Tudo isso reforça a perspectiva do Observatório de que o enfrentamento à desinformação deve ser participativo, fomentando o debate sobre o tema em diferentes territórios, a partir de diferentes perspectivas e saberes. Esse problema afeta a toda sociedade nas mais diversas dimensões e não pode ser resolvido apenas através de especialistas ou da simples ‘correção’ de informações falsas.
O encontro entre gerações da cena, com a troca de experiência e renovação, busca por soluções coletivas para novos desafios e reavaliação dos antigos, estimulou o desejo de conhecer mais, estudar mais, de se colocar criticamente diante das informações que recebe, se informar sobre a história e as possibilidades criadas pela própria cena, permitindo a imaginação de um futuro sólido para produtores, MCs, Djs, grafiteiros e o público das batalhas. A criação de redes de apoio se mostrou fundamental para o enfrentamento à desinformação enquanto defesa do próprio território, suas possibilidades e seus direitos.
O evento frutificou entre os participantes e ofereceu possibilidades de viabilizar redes descentralizadas, focadas na cena das batalhas, para a disseminação do conhecimento, informação e fortalecimento da cena hip hop. Ou, nas palavras de Togau
O evento serviu para um olhar no olho do outro e pensar “nu, eu acredito nocê” e agora a gente tá pensando em outras formas de trabalhar junto. O contato tá mais forte.