Apontadas pelo Governo Federal como maiores vítimas de desinformação nas redes sociais no Brasil, as mulheres são vítimas tanto de golpes e fraudes quanto da desinformação de gênero, que as ataca criando informações falsas sobre elas, suas vidas pessoais e atuações públicas e profissionais.
O impacto da desinformação no público feminino engloba desde o impedimento de acesso a direitos, passando pela perda de benefícios, problemas de saúde, chegando ao isolamento e afastamento da vida pública, mantendo-as distantes de cargos públicos ou de liderança.
Considerando essa realidade e o importante papel de referências femininas nos territórios parceiros, já buscávamos trabalhar com o público feminino desde nosso primeiro ciclo. Com a explosão de casos de feminicídio ocorridas no final de 2025 e início de 2026, o aumento da misoginia nas redes sociais e dos riscos para as mulheres a partir do uso de IAs generativas na produção de deepfakes, voltamos nossa atenção para a possível relação entre violência de gênero e desinformação.
Escutas
Ao explorar o tema em nossas escutas, percebemos que as dúvidas sobre violência contra a mulher começavam muito antes dos caminhos de proteção ou direitos das mulheres que sofrem violência doméstica.
Com uma comunicação pública preventiva muito voltada à violência física e sexual e um contexto machista, muitas mulheres não sabem identificar outros tipos de violência, como psicológica, material ou moral.
Como relatado na cartilha Violência contra as mulheres: conhecer para combater, da UFABC:
Ainda convivemos com a ideia de que só existe violência em casos muito graves como os que aparecem nos jornais e na televisão com cenas de mulheres machucadas ou casos de feminicídios violentos. Porém, especialmente no contexto de violência doméstica, as agressões aparentemente menos graves, além de serem tão preocupantes quanto a violência física, costumam ser o início de um ciclo de violência que pode colocar em risco a vida da mulher.
Outros problemas percebidos foram a relação tensa dos territórios com a polícia, dificultando as chamadas de ajuda em casos emergenciais e o senso de justiçamento do próprio território, que pode vir a perpetuar a violência contra a mulher.
“Você vai acionar uma viatura, é um custo, talvez o PM que, nossa, já tá quase na hora do final do meu plantão, vou ter que atender essa ocorrência, vou ter que levar essa mulher pra delegacia de mulher. vou ter que ficar lá fazendo boletim de ocorrência, a gente sabe que não querem fazer, né? Então assim, e é isso, é da mulher saber que ela tem o direito de cobrar, se se uma viatura não quis levar, de chamar outra, de fazer esse movimento mesmo de acolhida da mulher.” Raquel – Instituto transformando Vidas.
Lorrayne (Conecta Cabana – Cabana do Pai Tomás) chama atenção para a violência de gênero no território, especialmente em contextos influenciados tanto pelo tráfico quanto por discursos religiosos. Ela menciona, por exemplo, o controle sobre o corpo feminino, com castigos simbólicos como raspar a cabeça de mulheres acusadas de traição, e o discurso religioso que reforça o papel da “boa esposa” e a moralidade cristã patriarcal.
Além disso, existe toda uma cultura que favorece agressores, como apontado por Rosa Inês Silva, da Cabana do Pai Tomás.
“As mulheres se culpam, chegam a falar que eles (os agressores) gostam delas, que foram elas que deixaram eles nervosos. Eu chamo alguns desses caras para conversar e a justificativa das agressões são absurdas. Eles tratam ela como objetos e não têm vergonha de falar. Já tá na cultura já… é a violência normalizada.”
Parceria com Evangélicas pela Igualdade de Gênero
Em nossas pesquisas, identificamos dois dados importantes: que mulheres cristãs são as maiores vítimas de violência doméstica e que buscam ajuda na igreja antes mesmo de procurarem a família, autoridades ou amigos.
Conhecíamos as Mulheres EIG – Evangélicas pela Igualdade de Gênero desde a nossa campanha Cristãos contra a Desinformação e sabíamos que elas já tinham produzido a cartilha Feminicídio Zero em Salvador, e estavam em processo de produção de uma nova edição em Minas Gerais. Entendendo que as mulheres cristãs eram um público extremamente vulnerável em nossa campanha e que pedia por uma forma de comunicação específica, procuramos a parceria com as Mulheres EIG para desenvolvermos juntos um material para este público.
A construção da campanha
Optamos por desenvolver a campanha em duas frentes: uma voltada especificamente às mulheres cristãs e outra pensando no público feminino de forma mais geral.
A publicação Mulheres com Deus
Na frente voltada ao público cristão, investimos na parceria com as Mulheres EIG. Entendemos que elas sabiam como se comunicar com esse público e onde alcançá-lo. Levamos para elas alguns retornos sobre a primeira versão da cartilha, que havíamos mostrado em nossas escutas. Somando a experiência das Mulheres EIG com nossa expertise em comunicação, construímos a publicação Mulheres com Deus: caminhos para uma vida abundante e segura.
Para essa construção, foram tomados diversos cuidados:
- Pelo retorno das cartilhas originais, mudamos o título de Feminicídio Zero para Mulheres com Deus. Essa mudança tinha a intenção de 1) não afastar mulheres mais conservadoras, que associam palavras como feminicídio a pautas políticas; 2) Proteger possíveis vítimas de violência, que poderiam guardar esse material sem risco de serem ameaçadas por seus agressores.
- A linguagem interna da cartilha trabalha com textos bíblicos e termos e expressões usadas em templos, igrejas, estudos bíblicos etc. Todos os textos foram desenvolvidos pelas Mulheres EIG e embasados. O Observatório somou editando os textos para torná-los mais compactos e caber em um formato que condizia com nossa verba de produção. Todos os textos integrais foram disponibilizados no site das Mulheres EIG.
- O Observatório incluiu uma área com informações simplificadas e de fácil acesso para órgãos de proteção, cuidado e defesa das mulheres em situação de violência, tanto em Belo Horizonte quanto no estado de Minas Gerais.
- A identidade visual e diagramação do material teve um cuidado particular:
- foram usadas cores e imagens que já remetessem a outros materiais de estudo bíblico feminino, tanto na capa quanto internamente, focando mais uma vez na segurança da mulher que recebe e guarda esse material.
- Evitamos seguir pela linha que enfatiza a mulher violentada, e trouxemos imagens de mulheres saudáveis, felizes e unidas. A união entre mulheres foi o tom de toda a identidade visual.
- A diagramação facilitava acesso visual rápido a informações importantes em caso de emergência sem destacar demais os conteúdos de proteção.
- Na diagramação, também tivemos o cuidado de não colocar a lista de órgãos no centro da publicação, evitando que ela fosse a primeira página a ser aberta, caso fosse vista por um possível agressor.
Além da publicação, reativamos o projeto Boletim de fé, áudios de referências religiosas enviados via Whatsapp todas as sextas-feiras. Nesta edição do projeto, as falas estavam diretamente ligadas a proteção da mulher.
A comunicação nas redes sociais
Em nossas redes sociais, ampliamos o público da campanha, entendendo que todas as mulheres podem vir a sofrer violência. Para que não parecessem duas campanhas distintas, abraçamos a mesma identidade visual desenvolvida para a publicação.
O desenvolvimento do conteúdo passou por um olhar atento para as escutas: a partir dos temas e dúvidas mais recorrentes, desenvolvemos vídeos e posts que informavam e auxiliavam a ter acesso rápido a órgãos e formas de ajuda.
Enfatizamos os diferentes tipos de violência, usando exemplos simples e do dia a dia, reforçamos a ideia de união entre mulheres, buscamos trabalhar a questão da culpa da mulher, responsabilizando os abusadores e trouxemos informações sobre formas de proteção. Os boletins de fé também foram compartilhados em nossa rede.
Distribuição e resultados
Foram impressos 5000 exemplares da publicação, lançada no dia 26 de abril, em um culto realizado na Comuna do Reino, aberto à comunidade geral. Neste dia, foram realizadas falas das Mulheres EIG e do Observatório, além do culto regular pregado por uma pastora.
Além do ato de lançamento, a publicação foi apresentada em 4 rodas de conversa em quatro territórios de Belo Horizonte, que não tiveram registros públicos, visando proteger as mulheres participantes. Esses encontros foram uma oportunidade para que as mulheres pudessem se abrir umas com as outras e se apoiar, além de ampliar o olhar para a Bíblia e para Deus também como um lugar de cuidado.
Ao todo, 25 referências comunitárias receberam o material, totalizando uma distribuição de 2130 exemplares só pelo Observatório. Fomos convidados a apresentar o trabalho no Conselho Municipal de Direitos das Mulheres de Belo Horizonte e no 1º Encontro Minas Gerais contra o Feminicídio da FESMIG.
Nas redes sociais, tivemos uma média de 600 visualizações por post e quase 10.000 visualizações dos vídeos no período de vigência da campanha.
Acolhimento e união contra a desinformação e a violência
Ao longo da construção dessa campanha, nos deparamos com diversas dificuldades do enfrentamento da violência contra a mulher e seus atravessamentos pela desinformação. Entendemos que a desinformação, nesses casos, passa também pelo medo, pelo reforço de estigmas e, muitas vezes, pela manipulação de um sistema de valores.
Nessa campanha, a escuta teve um valor muito especial, porque as mulheres que sofrem violência, em grande parte das vezes, perdem o direito a sua fala, são descredibilizadas em suas denúncias e esse silêncio contribui para perpetuar a violência.
Entendemos que o enfrentamento da desinformação, em casos como esses, passa inicialmente pelo acolhimento, pela criação de ambientes seguros, onde se possa recuperar essa voz, para então começarmos um debate que desmonta discursos que ferem, culpabilizam e assustam, enfrentando a violência e a desinformação de mãos dadas com quem sofre suas consequências.
Se desejar baixar a cartilha para utilizá-la em seu território, clique aqui.




