O Observatório Participativo da Desinformação iniciou os seus trabalhos em setembro de 2023 e, depois de todos esses meses, termina o ano de 2024 com uma série de experiências e aprendizados sobre o enfrentamento à desinformação em territórios periféricos. Neste relato, trazemos um breve resumo das nossas principais observações para seguirmos articulando, fortalecendo e promovendo iniciativas populares de enfrentamento à desinformação em 2025.
Ao longo de 2024, fizemos a nossa formação com o grupo Dá Ideia, que envolveu 12 jovens de 4 territórios diferentes (Aglomerado da Serra, Morro do Papagaio, Pedreira Prado Lopes e Justinópolis-Ribeirão das Neves) e que totalizou 240 horas de aulas e práticas para combater a desinformação em cada um dos territórios.
Junto ao Dá Ideia e a dezenas de entidades da nossa rede, realizamos quatro campanhas em territórios periféricos de Belo Horizonte. Começamos em março com a campanha contra os Golpes Cibernéticos; em abril fizemos a campanha Arrume Seu Título, pensada junto com a Teia de Criadores; de maio a setembro nos imergimos no tema do direito à moradia e fizemos a campanha O Certo Pelo Nosso Teto e, por último; fizemos a campanha de enfrentamento à Desinformação Eleitoral durante as eleições municipais.
Em todos esses processos, nossa equipe teve como princípio e como metodologia a escuta e a construção colaborativa, de forma que podemos dizer que escutamos e/ou nos articulamos com mais de 60 entidades para enfrentar a desinformação em territórios periféricos. É importante colocarmos que fazemos nossa escuta em dois tipos de contextos diferentes: em um deles, conversamos sobre a desinformação de forma mais aberta e geral, buscando entender qual é a relevância desse tema no contexto de cada território e de cada trabalho social desenvolvido. Em outro, perguntamos diretamente sobre temas já escolhidos das campanhas, como o título de eleitor, o direito à moradia, as eleições (e mais novos temas para campanhas que ainda estão no forno). Um ponto importante de colocar é que nosso foco é nos territórios periféricos não por acharmos que há mais desinformação nesses espaços, porque não há nada que indique isso. Nosso foco é esse, por entendermos que os danos da desinformação nesses contextos de vulnerabilidade podem ser maiores e por percebermos que esses públicos raramente são observados em suas especificidades em ações de enfrentamento à desinformação.
Ao todo, o Observatório Participativo em 2024:
- Escutou de forma mais aberta 51 lideranças comunitárias;
- Escutou em contextos de campanha outras 13 lideranças comunitárias;
- Articulou-se com outras 18 entidades para a realização de ações e prospecção de iniciativas;
Mas o que podemos dizer sobre tudo isso que escutamos? Em primeiro lugar, para a grande maioria das lideranças, o enfrentamento à desinformação não pode ocorrer somente no mundo virtual, de forma que é preciso fortalecer e promover ações e relações territoriais. Isso tem nos levado a pensar, cada vez mais, em ações híbridas, que contem com materiais online para redes sociais e whatsapp de forma aliada com intervenções territoriais e distribuição de materiais. Além disso, essa perspectiva nos faz reconhecer a intensa interação das notícias falsas com as fofocas, boatos e difamações que circulam de maneira mais local.
Em relação aos temas das desinformações, algo que nos chamou a atenção desde o começo da nossa escuta e é cada vez mais nítido é que, nos contextos periféricos, boa parte da desinformação percebida e enfrentada está relacionada à garantia de direitos e às políticas públicas, sobretudo às assistenciais. Nesse tema, há um encontro perverso entre três tipos de desinformação: (1) a circulação de peças e discursos mais claramente falsos que deslegitimam políticas públicas como o Minha Casa Minha Vida, o Bolsa Família ou a Lei Maria da Penha; (2) golpes com links falsos para esses programas para o roubo de dados ou de dinheiro; (3) as lacunas da comunicação pública, que tornam as informações precisas e oficiais sobre a política pública pouco disponíveis e pouco inteligíveis. Dentre os públicos principais atingidos por essa desinformação, temos aquelas que são justamente as principais beneficiárias dessas políticas: as mulheres, chefes de família, que em geral são as vítimas de violência, no caso da Lei Maria da Penha, e que em geral são as que assumem o cuidado assistencial da família, no caso das políticas do cadÚnico.
Ainda sobre os temas, as desinformações que atacam diretamente certos grupos também aparecem com relevância, como, principalmente, desinformações que atacam religiões de matriz africana, juventudes negras e periféricas, movimentos sociais e a comunidade LGBT. Além do ataque direto aos grupos, temos escutado muito sobre casos de difamação direta de pessoas, principalmente junto ao público jovem, como com estudantes secundaristas. É evidente que esse tipo de difamação sempre ocorreu, mas, tanto em contextos escolares, como em comunitários, as redes sociais têm amplificado o problema. Outro ponto importante nesse sentido é que, em contextos em que há a presença do tráfico de drogas, essas difamações podem chegar a desfechos ainda mais graves, com ameaças às vida, necessidade de mudar de local, de “sumir” e etc.
Por fim, outro ponto muito relevante é o quanto muitas das lideranças comunitárias são procuradas como “checadoras” de informações que a população em geral recebe e o quanto são vistas como fontes de informações seguras sobre políticas públicas e questões políticas. Isso tem reforçado a importância de nossa missão de fortalecê-los e ampará-los para responder a essas demandas. As formas como respondemos a essas demandas esse ano foi, justamente, através das quatro campanhas citadas e cujos materiais seguem disponíveis em nosso site.
Além do Dá Ideia e da Escuta Sistemática, o Observatório tem tido um trabalho promissor através do edital Periferia Sem Fake. O primeiro ciclo das quatro primeiras ganhadoras do edital já foi realizado trazendo novas compreensões sobre a desinformação e novas estratégias para combatê-la. A iniciativa Fakes que Mudam Vidas, da Associação Cultural MA, desenvolveu, junto a 21 crianças do ensino fundamental da Pedreira Prado Lopes, um espetáculo com dança, dinâmica e palestra sobre cyberbulling que circulou em 5 escolas do ensino fundamental; o projeto Circula Libras produziu 5 vídeos em Libras alertando para a desinformação junto ao público surdo; o portal Conecta-Cabana vem desenvolvendo uma comunicação feita pela e para a periferia e localizada na maior favela de Belo Horizonte, a Cabana do Pai Tomás; e a União da Juventude Socialista juntou-se aos grêmios de 6 escolas estaduais promovendo oficinas de checagem de informação com foco na desinformação eleitoral.
O segundo ciclo já iniciou com mais três iniciativas e em 2025 outras ainda serão contempladas. Nosso trabalho de escuta e articulação permanece ativo e logo mais novas ações e campanhas poderão ser vistas no nosso site e nas nossas redes sociais.
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